29/05/2009

"you have no rights" - George Carlin

26/05/2009

hoje à tarde


Hoje à tarde atravessei a cidade de uma ponta à outra e depois à outra. Foram 17 estações, dois táxis e um trem. Hoje à tarde eu tinha pressa, muita pressa, e lugar nenhum pra chegar.
Hoje à tarde eu fugi, como fugi anteontem e antes de anteontem. E escapei. Só até amanhã.
Hoje à tarde corri pelas ruas, o coração um tambor. A alma não estava - encantou-se por um piano e preferiu cair no jazz. Até agora não voltou.

Hoje à tarde tropecei nisso. E não me levantei. E não fugi mais.

tatuar no braço direito:

"Os crimes realmente grandes não existem porque os cometemos mas porque deixamos que aconteçam." O homem sem qualidades, Robert Musil.

22/05/2009

Réquiem para o Rio de Janeiro

Esquece a campanha contra o Jabor. Só pelos textos dele sobre a decadência carioca o cara já tá perdoado.

Eu, como carioca, hoje estou de luto pela cidade que amei e que ainda amo. Cariocas defendendo linchamentos como solução para a violência (?!) e a jornalista, ao narrar a matéria, advertindo a população a não imitar o exemplo dos linchadores porque "reagir a assalto é perigoso". Seguranças chicoteando os cidadãos para entrarem em trem superlotado. Tiroteio no Pavãozinho em plena manhã de sexta.

Acabou o Rio de Janeiro. Terminou. Minha prece, meu pranto, por essa cidade amada e abandonada.

UPDATE: Pensamento póstumo: o Rio é patrimônio nacional. Não são só os habitantes da cidade que perdem com o fim da cidade, é o país.

ainda sobre valores absolutos

Eu e rm nos envolvemos em um debate sobre absolutização de valores e relativização de verdade a partir do post anterior, debate esse que já se desenrola faz tempo no campo dos estudos sobre literatura de testemunho. Na verdade, esse debate - que abrange várias outras questões como a da violência e representação, memória x esquecimento, ética x estética, e daí em diante - é a grande discussão hoje no campo das ciências humanas e arte, e foi inaugurado por Adorno nos anos 70, com seu texto sobre a arte após Auschwitz ("escrever um poema depois de Auschwitz é um ato de barbárie").

Curiosamente, acompanhando as notícias sobre Cannes, vejo que o favorito à Palma de Ouro é "Das Weisse Bande" ("The White Ribbon"), novo filme de Michel Haneke - que ganhou a Palma de Ouro antes com o seu "A pianista".

Considero Haneke o melhor cineasta da atualidade. Seus filmes são extremamente polêmicos e viscerais; no entanto, seu uso da representação é criterioso. Talvez por isso seus filmes sejam tão impactantes. O excelente "Funny Games" (traduzido de maneira infeliz por "Jogos Violentos"), por exemplo, é sobre a violência e sadismo engendrados pela nossa sociedade contemporânea. O filme é um soco. No entanto, há pouquíssimas cenas de violência explícita.

Cito a fala de Haneke sobre seu novo filme e a pertinência deste para o debate em questão: "I've had this project in mind for over ten years. I was interested in presenting a group of children who are taught absolutist values, and the way they internalize this absolutism. My point was to show the consequences – that is, all sorts of terrorism. If absolutism is applied to an ideal, then that ideal, either political or religious, becomes inhuman. I had considered calling the film "The Right Hand of God." These children believe they are the right hand of God: they have understood the laws, and follow it to the letter. This makes them become the punishers of the others, who do not obey the same ideals. This is how the terrorism originates. The film should not be considered as a comment on fascism alone." (grifo meu - mais da entrevista de Haneke no link do filme, acima)

21/05/2009

Limites, Tarantino, limites.

Vai dar merda. Tarantino resolveu se meter na seara arriscadíssima do nazismo/Holocausto. Posso estar enganada, mas acho que vai dar um auê essa história, daqueles. Ok, tem muito filme sobre o Holocausto que é truqueira e não se vê neguinho gritando toda hora. Mas não é todo filme que ganha espaço na mídia como os do Tarantino. E dessa vez ele resolveu brincar com o último bastião absoluto da nossa frouxa pós-modernidade. Tudo é relativo, menos o Holocausto.

Por ora, fiquem com o trailer. E depois que sair a Palma de Ouro desse ano já teremos uma idéia de como a Europa vai reagir a essa história.

Twitter, decadência carioca e Sophie Calle

Desculpem o atraso, mas tá aí: para a Elegantly Dressed Wednesday, essa Marilyn Monroe só de maiô e très très chic.
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Achei que não fosse acontecer mas aconteceu: o Twitter está monopolizando minha vontade de escrever.
O dilema não é só meu mas geral. Um dos critérios de nossa época para credenciar um texto como "bom" é a precisão e a capacidade de ser suscinto. Convenhamos, temos preconceito contra um texto mais longo. É muito mais fácil agradar com um texto breve e smart.
Pois bem, o formato do Twitter obriga o sujeito à rapidez. Já o blog exige mais e nem sempre dá o retorno esperado - muita gente lê e não comenta, ou não lê, ou sei lá. Enfim, se isso aqui estiver muito parado, você(s) pode(m) me encontrar no Twitter. O link está aí do lado.
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Segundo "veja bem" da campanha "Por que no te calás, Jabor?": a carta aberta ao Sérgio Cabral, escrita por ele, é tocante. Melhor ainda é o texto sobre a decadência do Rio. Digno de nota.
Jabor é carioca mas passa a maior parte do tempo na ponte aérea. É um carioca, sempre vai ser; mas também não é mais. Morando em São Paulo ganhou distância para avaliar a lama em que o Rio ameaça afogar-se.
Cresci em Ipanema. Estudei no Leblon e Gávea. Deixei o Rio para vir para SP pela primeira vez aos 16 anos. Fiquei cinco, voltei pro Rio, fiquei um, voltei pra São Paulo. E pro Rio não volto mais. Ou, pelo menos, não enquanto a cidade continuar parada no tempo e na história como há anos está.

É triste. Andei vendo um programa engraçadíssimo sobre a "cozinha verdade, cozinha guerrilha". O protagonista é um ator carioca chamado Paulo de Oliveira interpretado pelo ator carioca Paulo Tiefenthaler, na cozinha de seu apartamento (de verdade) em Santa Teresa, bairro descolado do Rio. A culinária é, na verdade, uma desculpa para um ótimo programa de humor solto, improvisado e muito carioca. Pra quem já morou no Rio o coração aperta de saudade, não tem jeito. Mas, veja bem, qual é o tema principal das piadas? A crise - não essa que varreu o mundo em 2009, mas aquela outra na qual o Rio se encontra há décadas. É um programa de puro humor carioca, que só poderia ser feito por um. É o típico carioca rindo da desgraça tipicamente carioca, de forma inequivocadamente carioca. É hilário, mas dá vontade de chorar também.

Quando foi que o Rio deixou de ser o Rio para se contentar em ser uma cidade que "é uma merda, mas é boa", como diz a piada? O que aconteceu com o Rio, com o meu Rio de Janeiro? Que tristeza. E, cariocas, aqui de uma exilada: faço eco às palavras de Jabor. Sei que vão querer cuspir em mim, vão dizer que nem carioca sou mais, que já virei paulista, etc, mas prestem atenção: continuar negando os problemas do Rio, continuar com essa mentalidade "o Rio é a melhor cidade do mundo", isso é tapar o sol com a peneira. Pior: isso é ajudar a enterrar essa cidade. Só se resolve os problemas que são reconhecidos. Sem isso não dá nem pra começar.
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Por último: não vou na FLIP porque realmente me falta saco para a pagação, a multidão, a exploração de preços, enfim, para o circo. E porque, principalmente porque o melhor da festa, Sophie Calle, chega ao Sesc de São Paulo em Julho. Essa senhora é um espetáculo e ando irremediavelmente apaixonada por ela. Quando crescer, quero ser Sophie Calle.